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“Conquistamos a simpatia do Brasil”, vice de futebol da Chapecoense

Jogadores da Chapecoense comemoram vaga na final (Foto: Márcio Cunha/EFE)

Jogadores da Chapecoense comemoram vaga na final (Foto: Márcio Cunha/EFE)

Por Rafael Campos

A Chapecoense vive o melhor momento de sua história. O objetivo de se manter na Série A foi concluído com êxito e antecedência, mas 2016 reservou ainda mais. Se antes parecia um sonho, uma final em torneio internacional, agora, é realidade. Finalista da Copa Sul-Americana, o time de Chapecó vê todo o Brasil torcendo junto, valorizando ainda mais o excelente planejamento do clube.

Apenas 43 anos depois de sua fundação, a evolução do clube chama atenção. No Campeonato Brasileiro, a Chape disputava a Série C em 2012, conquistando o acesso para a divisão de cima um ano depois, chegando à elite do futebol brasileiro em 2014. De lá pra cá são três anos conseguindo se manter na Série A, garantido para a próxima temporada.

A exemplo do Brasileirão, na Sul-Americana o crescimento é notável. Estreando na competição em 2015, chegaram à semifinal, eliminados pelo tradicional River Plate. Na oportunidade a imprensa argentina menosprezou os brasileiros antes do confronto, mas, após a disputa acirrada, fizeram questão de mostrar respeito. Este ano, a vaga na final do torneio coroa o planejamento.

Em meio à semana agitada, após a classificação histórica, o vice de futebol da Chapecoense, Mauro Stumpf, atendeu, por telefone, a reportagem do Guia da Bola, enfatizando que os resultados são “mérito para Santa Catarina, não só para o clube”.

Vice de futebol, Mauro Stumpf (à direita), ao lado do diretor de futebol Cadu Gaúcho (Foto: Laion Espíndula)

Vice de futebol, Mauro Stumpf (à direita), ao lado do diretor de futebol Cadu Gaúcho (Foto: Laion Espíndula)

Um levantamento feito pela Itaú BBA, em junho deste ano, apontou que a Chapecoense é a equipe com menor valor de dívidas da Série A 2015. Entre os débitos, o valor chegava a R$5 milhões. Para Mauro Stumpf, o segredo da boa administração do clube passa pela atenção a condição financeira.

– Temos uma receita de, no máximo, R$50 milhões por ano e brigamos com gigantes que trabalham até com R$700 milhões. Temos que nos adaptar a competição, nos dedicando muito, porque estudamos bastante os atletas que vamos trazer, para que eles venham conscientes do que vão encontrar. Nós temos uma premissa de pagamentos em dia, cumprindo tudo que é falado – Apontou o vice de futebol, considerando uma gestão diferente do que é feito no Brasil.

Citando a importância de Chapecó ter abraçado o projeto do time, Mauro Stumpf ressalta que o bom momento não subiu a cabeça. O cartola se disse lisonjeado, pelo reconhecimento em todo Brasil e afirma que a Chapecoense vai seguir com a humildade de sempre, lembrando de um episódio de solidariedade a adversário.

– Não são inimigos. Uma vez o Santa Cruz veio nos enfrentar, em Chapecó, eles não estavam preparados para o inverno daqui e emprestamos até nossos agasalhos. Todos levam uma boa impressão, receptividade, cortesia do povo, isso é característico daqui – Para Stumpf, o jeito do clube pode ser o motivo de conquistar a simpatia de todo o Brasil.

Antes longe dos sonhos do clube, a Chapecoense tem convites de realizar pré-temporada fora do Brasil, segundo o vice de futebol. A ficha parece ainda não ter caído para a equipe, sobre a decisão contra o Atlético Medelín, da Colômbia.

– Não temos a dimensão ainda. O clube é muito novo, está crescendo muito rápido. Sabemos que é uma coisa grandiosa, reconhecida no mundo todo. Temos os pés no chão, ainda faltam duas partidas muito importantes, faremos de tudo para trazer o título para o Brasil, para o estado, para a cidade, para o clube.

Para a final da Copa Sul-Americana, a Conmebol exige que os estádios possuam, no mínimo, capacidade para 40 mil torcedores. Sem poder atuar na Arena Condá, a Chapecoense já se decidiu por utilizar o Couto Pereira como palco da decisão, apesar de lamentar a situação.

Além da chance de levantar a taça, a vaga na Libertadores 2017 se tornou um sonho cada vez mais possível. Caso leve o título, será a primeira vez que a Chape disputará o maior torneio das Américas.

– Toda competição que disputamos, nos preparamos, como foi a Sul-Americana. Não conhecíamos o torneio, mas estudamos muito os adversários, o campeonato, para minimizar os erros. Se formos para a Libertadores, pensamos que possa ser parecido com a Sul-Americana, mas com uma dificuldade maior. Enfrentamos adversários tradicionais como o River Plate, San Lorenzo e se formos para Libertadores, acredito que possamos enfrentá-los de igual para igual – Garantiu o cartola.

(Reprodução Twitter)

(Reprodução Twitter)

Confira a entrevista na íntegra

Rafael Campos – A ascensão da Chapecoense chama a atenção. Como foi feito o planejamento para chegar até aqui?

Mauro Stumpf – Nós tínhamos um sonho, de ter calendário o ano todo. O clube iniciava e ficava seis meses atuando e outros seis parado. A partir daí começamos a planejar o clube como uma empresa. Teria que ter fluxo de caixa, decisões feitas por um colegiado e não só por uma pessoa, tomadas em conjunto. Isso foi nos levando a crescer de ano a ano e agora conseguimos, não só no Campeonato Brasileiro pelo quarto ano, também na Sul-Americana, com boas campanhas. Mérito para Santa Catarina, não só para o clube.

RC – São quatro anos consecutivos se mantendo na Série A, enquanto grandes clubes do futebol nacional passam por dificuldades para não cair. A que se deve essa conquista?

MS – Sabemos dos nossos limites, não adianta sonhar com título, nem com Libertadores. Primeiro pela nossa condição financeira não permitir, temos uma receita de, no máximo, R$50 milhões por ano e brigamos com gigantes que trabalham até com R$700 milhões. Temos que nos adaptar a competição, nos dedicando muito, porque estudamos bastante os atletas que vamos trazer, para que eles venham conscientes do que vão encontrar. Nós temos uma premissa de pagamentos em dia, cumprindo tudo que é falado. É uma gestão um pouco diferente do que é feito no Brasil. Imaginamos, se nós podemos mudar um pequeno clube, pensando em fazer uma coisa maior, o que pode servir de exemplos para outros clubes medianos, ou até maiores, que estejam afundados em dividas, que eles podem fazer um planejamento nos mesmos moldes.

RC – Chapecó é uma cidade de mais de 200 mil habitantes. Como vocês conseguiram com que o município abraçasse o time?

MS – Nós provamos para a cidade que o nosso sucesso é como o de uma grande empresa. Funcionários satisfeitos, atletas focados no futebol, sem preocupações com sua receita. A cidade começou a comprar o modo como agimos, com transparência, honestidade, seriedade. Assim começou a dar resultado, entramos com cerca de mil associados, e hoje temos nove mil e quinhentos, para uma cidade de 200 mil habitantes, o dobro do que é tradicional, com o percentual de 2% sobre a população. Essas mudanças implantadas servem até de exemplos para administrações públicas.

RC – Além do apoio da cidade e da região Sul, o Brasil todo está torcendo pela Chapecoense na Sul-Americana. Como o clube reage a isso tudo?

MS – Não nos sobe a cabeça, ficamos lisonjeados, por estarmos sendo reconhecidos pelo Brasil. Vamos continuar com nosso jeito humilde, recebendo todos bem, porque somos adversários e não inimigos. Uma vez o Santa Cruz veio nos enfrentar, em Chapecó, eles não estavam preparados para o inverno daqui e emprestamos até nossos agasalhos. Todos levam uma boa impressão, receptividade, cortesia do povo, isso é característico daqui. Talvez por isso tenha conquistado a simpatia de todo o Brasil. Tenho recebido ligações do Brasil inteiro e até de fora do país. Elogiam nosso trabalho, a seriedade. Não ficamos na mão de empresários. Não ficamos a mercê de treinadores, sabemos que é uma função com prazo de validade. Trazemos atletas que pensamos que se encaixam dentro do nosso perfil.

RS – Em 2015 veio a eliminação na semifinal da Sul-Americana e agora estão na decisão. A ficha já caiu?

MS – Não temos a dimensão ainda. O clube é muito novo, está crescendo muito rápido. Sabemos que é uma coisa grandiosa, reconhecida no mundo todo. Temos os pés no chão, ainda faltam duas partidas muito importantes, faremos de tudo para trazer o título para o Brasil, para o estado, para a cidade, para o clube. É uma projeção mundial, temos convites para fazer pré-temporada fora do país, o que não era imaginado há um tempo.

RS – Com o título vem a vaga inédita para a Libertadores 2017. Qual o planejamento, caso conquistem esse objetivo?

MS – Toda competição que disputamos, nos preparamos, como foi a Sul-Americana. Não conhecíamos o torneio, mas estudamos muito os adversários, o campeonato, para minimizar os erros. Se formos para a Libertadores, pensamos que possa ser parecido com a Sul-Americana, mas com uma dificuldade maior. Enfrentamos adversários tradicionais como o River Plate, San Lorenzo e se formos para Libertadores, acredito que possamos enfrentá-los de igual para igual.

RC – A Chapecoense ficou muito conhecida pelas brincadeiras em redes sociais. Como surgiu isso? Podemos esperar o amistoso com o Leicester?

MS – Estamos sempre dispostos. Nós adoraríamos (amistoso com o Leicester). Foi uma brincadeira do pessoal do marketing, que repercutiu muito bem. Quando é uma brincadeira para descontrair é saudável. O futebol é bonito porque leva a torcida, não pode engessar demais. Eles tem que ir feliz, vão xingar, sim, mas, geralmente, o torcedor é um jogador frustrado, quando faz uma grande jogada ele se imagina nele e vibra e quando erra, xinga, por que ele se imagina errando. Essas brincadeiras têm que existir, desde que haja respeito.

RC – O que esperar do futuro da Chapecoense?

MS – Queremos continuar a Série A, só assim para melhorar nossas estruturas. Temos que pensar na categoria de base, nas melhorias do Centro de Treinamento e dar condições cada vez melhores para os jogadores que possam chegar. O principal objetivo é se manter na primeira divisão e a cada ano poder subir um degrau, para o crescimento do clube.

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